segunda-feira, 8 de junho de 2026

  

Você me fez rir
mesmo
quando
o frágil
cristal
estatelou-se contra
- o duro -
solo
do
chão
frio & rubro
acimentado
da minha - velha - casa
uma rara
taça
Fratelli Vita
da coleção
herdada por minha mãe
abriu-se uma linha tênue
& vi você
afastando-se
rumo ao oriente
contrário
a minha direção
perdeu-se
Tenho sentido
uma solidão
dilacerante
nessa região torácica
do lado esquerdo
onde dizem se
localizar o coração...
Seu sorriso
salva-me
a madruga
seus longínquos
olhos
que nunca sei
a real coloração
- e quem se importa -
perco-me neles
por horas
séculos
dias...
Desperto
não ouço seus abraços
fecho a janela
na esperança
que jogue uma pedra
no meu ventrículo
quebrando a vidraça
do frio vento junino
de minha
outonal
esperança...

Rodrigo Chagas
08/06/26

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Quando finalmente fui enterrado
tive uma alucinação
vi você correndo
feliz com a chuva 
molhando seu estômago
e seus pés sorriam sujos 
de lama
Quando eu - ainda - estava aqui
ronronando entre seus
tornozelos
com meus pelos retorcidos 
você dizia
"maneire um pouco rapaz"
como se para um tufão
que faz
borboletas
despedaçarem
n´um cerebelo 
confuso
O namorado que desceu as escadas
chorando fortemente suas pegadas
eu...eu...já fui um desses também
não conseguindo parar
desci até o sótão 
do último porão
que escondia o seu sorriso
enquanto eu descia profundamente
dentro de ti...
movia
chacoalhava
pra dentro de você
até sair como um grito pela garganta inflamada - em todos os poros...
é o fracasso
daqueles que ultrapassaram a era moderna
meu sapatos furados
não seguram 
a torrente molhada 
de qualquer esgoto aberto
rasgos sujam toda minha mente
subindo pelos calcanhares 
até os fios de cabelos que não crescem mais
bolsos furados não adiantam
se as moedas nunca caem dentro deles
eu pulo fora
nunca consegui estar
dentro
o trem partiu
e a única passagem que eu tinha
esqueci que iria perdê-la
assim que a guardasse
no meu roto destino.

Rodrigo Chagas
29/05/26

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026



Neste verão tem chovido bastante
 - A cântaros
dizia o velho moço
da rua de trás -
essa cidade é totalmente
sem graça
sem você
sem sua presença
você arruma sua bagagem
e some para sempre
na parte sudoeste
desse continental país
volto pra casa chutando
pedras pontiagudas
se ao menos ferisse
meu pé calçado
protegido por uma bota antiga
mas não
dói em toda parte
menos meus maléolos desmembrados
é uma longa distância
até o centro
onde vc está sorrindo
- eternamente -
na fotografia
que carrego no celular
não tiro do bolso agora
porque a cidade perigosa
vai me fazer perder ainda mais
& tem as gotas de chuva
que enferrujam
tudo
estragam a parte eletrônica
do meu toque digital
Anteontem vc perdeu seu pai
esta manhã você se foi
fico aqui - agora - perambulando
até chegar ao ponto
estaciono meus pés numa poça
vejo minha figura contorcida
por um momento cantarolo uma canção
lembro de vc gargalhar
de minha voz
estranha
Neste janeiro
cinzas
pela
quente janela
amolecem meus ventrículos
cefalorraquidianos
quando na verdade
eu queria dizer:
estilhaçam
meu abandonado
coração

Rodrigo Chagas
17/01/26

domingo, 16 de novembro de 2025

 Dezembro


Andei pensando...
contar pros meus amigos
meu plano em deixar de existir n´um
Dezembro...
Eles falam que é uma época ruim
pra morrer...
pessoas viajam
funeral vazio
estragar a ceia
de dezenas
de pessoas...
pensei então
que tal em fevereiro?
Pro inferno o rei momo
& suas lantejoulas...

Maio

Estouro um calo
com uma água amarelada
minha mãe compra um presente
pra mim
transbordo
de infinita alegria
eterna...

Penso em abril,
como a chuva poderia estragar
meu enterro
e pouca gente iria
ao adeus final...

Um fiapo de manga verde prende
em meu dente & descubro uma nova
cárie
+ $ que se vai embora...
minha noiva me deixa,
O Bahia perde domingo,
segunda torço o tornozelo
jogando bola,
um mês de molho & muletas...

Na poltrona
ligo o televisor
uma mulata do Sargentelli
samba calorosamente em cima d´um salto Luís XV
 - & em minha dignidade acima do peso -
começo a pensar em gostar de carnaval...
porém podem pensar que sou um pervertido
chauvinista.

Levanto sem apoio,
caio de cara no chão,
por sorte o dente não cai & a cárie continua
Penso nas pessoas que se foram...
Realmente
não consigo lembrar de ninguém
que se foi no último mês do ano
Talvez eu devesse realmente
pensar + no que meus amigos
aconselham...

Batem na porta
 - mancando -
levanto pra ver quem é.

Rodrigo Chagas
16/11/25

domingo, 26 de outubro de 2025

Rascunho



Rascunho

Atirando na barraca
d´um decadente parque de diversões
Com espingardas de ar comprimido enferrujadas
Estilhaçando
velhos Cascos de cervejas
vazias
Vejo você
- lá no alto -
Sorrir
A roda-gigante
Para no firmamento
Luzes de néon de antigos prédios
- concretizados -
Distorcem seu sorriso
Enquanto Você acena pra mim
Juntamos alguns trocados
Moedas de cobre
Durante a semana
Para achar Alguma diversão
E aturar
Os falsos sorrisos
semanais.
8 horas por dia
Enquanto eu gostaria
de estar deitado contigo
Alisando seus Calcanhares...
2.400 minutos de angústia
& Desespero
Para chegar em casa,
te ver deitada na cama
Acariciando Nosso felpudo Animal
Suportar o Cotidiano
Pra ver suas Córneas Brilhando
ao Barulho
Da porta Descolando do batente de mármore
do bairro Oriental
Da cidade mais setentrional
Do seu
- ponderoso -
coração.

Rodrigo Chagas
26/10/25

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Pobre coitado
seu roto vestido
rasgado em mil pedaços
estraçalhado aos ventos
vou ao quarto & desligo a tv
corpos esquartejados
num lodaçal
perto 
do canal
da rua principal
Juca
José
Engulho
corvos
grasnam
ao meio dia
sorvo
um pouco de iodina
tudo fica um pouco melhor
os 
vitrais
ficaram 
roxos
a cortina
cedeu
ao peso
da 
-fria-
corrente de ar
minha
mãe gritou
em plenos 
pulmões
o vidro
se partiu
e minha língua
foi em duas direções opostas
João sacode o livro 
sagrado 
cita
sua passagem 
favorita
esse é o versículo
em que um deus
frita um ovo
na cabeça de um
anão gigante
e Ana grita em perigo
que seres imaginários
roubam sua visão
e sorri para Pedro
jogar uma pedra no poço em que cuspimos mais cedo
insultos contra demônios
e monges decapitados
Pai
leve-me ao hospital
e costure minhas 
entranhas
está na hora de partir
Ice a vela
antes que o peregrino
volte
e coma o resto do jantar sagrado das 7 horas
Vamos!
Está na hora.
Nem sei onde jogamos os restos mortais
dos ossos sagrados
Um relicário qualquer
num santuário empoeirado
Vamos...abandone a mim & o poema
não vês que a sessão acaba de começar
e ao perder o início
o final será prejudicado
pelo seu atraso.

Rodrigo Chagas
17/10/25